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Quem sou eu para escrever sobre democracia ou poliarquia depois de Aristóteles e de muitíssimos outros bem mais habilitados. Contudo, os dias de hoje incomodam-me ao ponto de querer dizer entender que sem oposição não existe democracia. Penso tratar-se de uma afirmação tranquila, bem aceite por aqueles que são democratas. Outros talvez entendam que, independentemente do que possa ser sinalizado ou contrariamente defendido, toda a oposição precisa ser desqualificada e suprimida na primeira oportunidade, nem que para isso seja necessário recorrer a comitês de maldade. Um entendimento que por princípio me preocupa pela fragilidade do debate imprescindível ao processo civilizacional. 

Ideologicamente, espera-se do regime democrático a alternância de poder, feita através da regular seleção de um programa político-partidário a ser escolhido pelo povo por meio do método universal de uma pessoa, um voto. Como é sabido, a democracia pode ser mais direta, mais participativa ou representativa e pode também estar em diferentes estágios de maturação. Outra coisa que se sabe é que não é perfeita e que tem pessoas que, democraticamente eleitas, interpretam essa forma estrutural do estado como indesejável, igual interpretam o espaço político da oposição. A essas pessoas é importante recordar que a oposição é inerente ao modelo e que ela desfruta de igual legitimidade pelo voto que lhe é conferido. 

Sem querer comentar sobre formas mais subversivas de oposição, sempre mais ativa nos regimes ditatoriais, nem dar destaque há oposição mais íntegra dos modelos mais igualitários, a verdade é que a ausência de oposição em democracia é uma falha no sistema. Uma falha introduzida por pessoas, obviamente. 

Assim como prontamente nos expressamos sobre erros ou incapacidade dos governantes em operar as melhorias necessárias na vida das pessoas, é importante que também saibamos opinar a respeito do trabalho da oposição. Uma oposição qualificada eleva a fasquia da governação. Uma posição calada, vendida, incapaz de fazer um trabalho mínimo de observação e cobrança do que foi sufragado, é vergonhosa. 

Inverter isso não fácil. O peso histórico e cultural, o déficit acadêmico e intelectual, e as muitas vontades ainda existentes de que o Brasil assim permaneça, dificulta muito as coisas. Dificuldades às quais se juntam as complicações advindas do fato de uma boa parte das propostas politicas não serem mais lidas dado o conhecimento que já se tem delas. Já se sabe que nelas tudo cabe e se repete, em particular as incongruências e em especial a falta de correspondência com as práticas no mandato. Por outro lado, os exageros de personificação das propostas politicas é também algo nocivo ao processo. Não pelo simbolismo que uma determinada figura possa despertar, mas pela responsabilidade que lhe é exclusivamente imputada em eventuais sucessos ou insucessos. Tudo acaba girando em torno de um alguém, sem a respectiva assunção e compartilhamento com demais envolvidos. Para esses basta só displicentemente se dar bem. 

Resumindo, é nesse vácuo que se colocam às pessoas as propostas de construção do amanhã. Um cenário desértico onde a cada vento forte as dunas se reposicionam e fazem as pessoas sentir que a política é como nuvem. Mas não é. Para mim não é. Posso reconhecer que se mudam os tempos, mudam-se as vontades, mas numa escala de tempo que não cabe numa só vida. Nestas vidas, entre outras coisas, o que sempre tem espaço é seriedade, idoneidade e sinceridade. Um ideário... esse, uns têm, outros não. 

Retornando ao assunto oposição, talvez seja didático mencionar que um governante que se preze, dá diferenciada atenção à oposição e aos puxa-saco que sempre orbitam contentes e gordurosos em seu redor. Não porque queira aplicar os ensinamentos de Sun Tzu, mas porque no seu íntimo sabe que só os fracos temem a oposição e só os fortes a sabem fazer. 

Rui Perdigão – Administrador, geógrafo e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso. 

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