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O cacique yawalapiti Aritana, uma das principais lideranças do Parque Indígena do Xingu, enfrenta problemas respiratórios, foi diagnosticado, a partir dos sintomas, com Covid-19 e deverá ser internado na noite deste domingo (19) no hospital municipal de Canarana (MT). Com cerca de 70 anos de idade e hipertenso, seu estado de saúde preocupa familiares e apoiadores dos indígenas do Xingu.

A internação ocorre um dia depois que outro importante líder indígena, o cacique kayapó Raoni, com estimados 90 anos de idade, deu entrada no hospital de Sinop (MT) com quadro de hemorragia digestiva. Sua mulher, Bekwykà, morreu em 23 de junho de infarto. Segundo o Instituto Raoni, o quadro de saúde do cacique é estável e ele aguarda novos exames.

Veja: Cacique Raoni é internado em Colíder após passar mal no Xingú

Aritana vive na aldeia Yawalapiti, no coração do Parque do Xingu, a cerca de 8 km do posto Leonardo. Ele não queria deixar a terra indígena porque os xinguanos temem as condições dos hospitais da região, onde não há UTI (Unidade de Terapia Intensiva), e também da capital de Mato Grosso, Cuiabá, onde a pandemia levou ao colapso de unidades hospitalares, porém foi convencido a viajar.

Segundo amigos do cacique, ele foi transferido de ambulância para Canarana. Caso seu estado de saúde se agrave, deverá ser transferido de avião para outro centro urbano. Ainda não há confirmação da doença por exame.

Campeão da luta esportiva tradicional xinguana huka-huka, semelhante ao wrestling, o líder indígena ganhou projeção nos anos 70, quando o movimento dos indígenas do Xingu pela integridade do território inspirou uma novela da extinta TV Tupi com seu nome. "Aritana", interpretado pelo ator Carlos Alberto Ricelli, foi ao ar de 1978 e 1979.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, Aritana perdeu um irmão, Matariwá Yawalapiti, morto em 24 de junho, um primo e uma sobrinha, Nhapukalo, no último dia 12, todos com o diagnóstico de Covid-19, segundo os apoiadores do Xingu.

Sem vaga

De acordo com uma "nota de falecimento e pesar" emitida em 12 de julho pela Casai (Casa de Saúde Indígena), vinculada à Sesai (Secretaria de Saúde Indígena) do Ministério da Saúde em Querência (MT), Nhapukalo apresentou "um quadro clínico avançado de Covid-19". Ela aguardava na Casai um leito de UTI "na referência mais próxima" entre os hospitais regionais, o de Água Boa. Contudo, "a vaga de regulação em Água Boa" não saiu, diz a nota.

A partir daí, a Casai e o Ministério Público fizeram "a judicialização de uma vaga de UTI e suporte de transporte aéreo". Nesse meio tempo, contudo, a indígena morreu. "Resposta da liberação da vaga de regulação em Água Boa saiu no final da tarde. No entanto a paciente não resistiu, evoluindo para óbito pelo agravamento do quadro clínico da Covid-19", informa a nota.

A morte da sobrinha de Aritana demonstra a precariedade do atendimento aos indígenas do Xingu, com 26 mil km², do tamanho de Ruanda, onde vivem cerca de 7 mil indígenas de 16 etnias: aweti, ikpeng, kaiabi, kalapalo, kamaiurá, kisêdiê, kuikuro, matipu, mehinako, nahukuá, naruvotu, wauja, tapayuna, trumai, yudja e yawalapiti.

De acordo com os dados oficiais da Sesai, já foram registrados até o momento cinco óbitos no Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu. Os números do levantamento próprio feito pela organização dos indígenas indicam mais do que o dobro de casos e mortes no país pela covid-19 - a diferença ocorre porque a Sesai não contabiliza casos registrados fora das aldeias.

Pela primeira vez em mais de 50 anos, o ritual tradicional do Quarup, quando xinguanos homenageiam seus mortos, foi cancelado em todo o território indígena.

A doença se alastrou

Em um áudio enviado para grupos de apoio na internet, o filho de Aritana e também líder indígena, Tapí, pediu ajuda para a emergência sanitária e disse que também estava com sintomas da doença.

"A doença alastrou nas pessoas. Coitado dos meninos, perderam o controle aqui. Hoje estou doente, peguei. Estou pedindo para a associação mandar urgente medicamento porque acabou o medicamento. O que a gente comprou aqui ajudou muito a tratar as pessoas. Inclusive nesse momento estou sentindo muita febre, dor de garganta, fraqueza. É muito triste tudo isso. Minha prima [Nhapukalo] foi levada para [o posto] Leonardo em estado muito grave, muito grave. Ela ficou na Casai cinco dias sem tratamento e voltou para cá com pulmão muito cheio de pneumonia. Então estou muito triste. As coisas de vez alastraram aqui, as doenças. Estou pedindo à associação comprar remédio o mais rápido possível e mandar de avião, porque não é brincadeira", disse Tapi.

Fora do Xingu, um grupo de apoiadores e indígenas que integram a Associação Awapá lançou uma campanha de arrecadação de recursos para aquisição de medicamentos e outros insumos de saúde para a região. Detalhes podem ser obtidos pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

"É uma situação muito grave e que não está tendo visibilidade. Quando um indígena fica doente no Xingu, a única chance de sair rápido de lá é por avião, mas agora os aviões não estão decolando porque há informação de que a gasolina está adulterada. É uma situação calamitosa. Precisava de um hospital de campanha para o Xingu. Lá só tem um postinho, pequeno, para atender emergência. Não há nem carro para deslocamento entre as aldeias, os enfermeiros às vezes vão de motocicleta. Os indígenas estão precisando de muita ajuda", disse Lila Rosa, educadora que desenvolve um projeto cultural junto com os yawalapiti.

A coluna enviou pedido de informações à Sesai e ao Ministério da Saúde no início da noite deste domingo (19).