Serão fechadas as fábrica de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e a da Troller, em Horizonte (CE). A marca vai continuar vendendo carros no Brasil, mas apenas modelos importados.

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A Ford vai deixar o Brasil? A fabricante norte-americana está cansada de investir bilhões de dólares no mercado sul-americano sem perspectivas de retorno a médio prazo, o que prejudicaria até seus planos globais de investimentos.

Na semana passada, Bob Shanks,  diretor financeiro mundial da Ford declarou (ao analisar o balanço anual da empresa), que a marca “não possui uma forte posição competitiva”  e nem consegue “retorno apropriado sobre o investimento” na America do Sul. A informação vem da agência Bloomberg, que já tinha, no início deste ano, registrado a mesma observação pelo mesmo Bob Shanks. Ele disse, então, que a Ford amargava prejuízo de cerca de U$ 1 milhão diariamente no Brasil. Desta vez, afirmou que perdeu U$ 4,2 bilhões na região desde 2012.

O CEO da Ford, Jim Hackett, confirma o que disse o seu diretor financeiro, mas observa que “a venda não é a única alternativa cogitada”. Segundo a mesma Bloomberg, outras empresas do setor que operam na América do Sul – FCA (Fiat Chrysler) e Volkswagen entre elas – foram contatadas para se avaliar seu interesse por suas operações na região.

Indícios de que a Ford vai deixar o Brasil?

Uma análise do comportamento da Ford no Brasil poderia avalizar as informações da agência norte-americana. Para começo de conversa, não  há dúvidas de que a empresa reduziu significativamente seus investimentos locais. Já se prevê que – assim como a GM fez há muitos anos – deverá desativar sua operação de caminhões. É evidente que a venda de veículos pesados desabou no Brasil nos últimos anos, mas continua sendo promissor e suas concorrentes continuam investindo localmente.

Com relação aos automóveis, o faturamento da Ford está quase integralmente baseado em dois modelos, o Ka e o Ecosport. O primeiro está numa sólida posição e entre os cinco mais vendidos do mercado doméstico. O Ecosport viveu dias gloriosos desde seu lançamento, em 2003 ,como pioneiro no segmento e manteve-se como única opção entre os utilitários esportivos compactos. Entretanto, passou a ter que disputar cada pontinho do mercado com os inúmeros concorrentes que surgiram nos últimos cinco anos.

O Fiesta já subiu no telhado, o Focus tem futuro incerto no Brasil, pois não há investimentos previstos na fábrica da Argentina para atualizá-lo em relação ao europeu. O Fusion deixará de ser produzido na América do Norte, de onde é importado para o nosso mercado. Será produzido na China e sua vinda para o Brasil é, portanto, incerta.

A picape Ranger é um bom produto da marca, mas também já teve dias melhores: está hoje em terceiro lugar no ranking, ameaçada de perto pela VW Amarok: vende pouco mais que metade da Chevrolet S10 em segundo lugar atrás da Toyota Hilux no alto do pódio.

Entre as marcas brasileiras, depois de muitos anos ocupando o quarto lugar em vendas distante das demais, ela hoje tem a Renault, Toyota e Hyundai em seus calcanhares e costuma ser rebaixada para quinta ou sexta posição no ranking.

Essa forte competição no mercado brasileiro traz outro inconveniente, a queda de rentabilidade para todos os players, mas a Ford, com investimentos minguados e reduzindo sua gama de modelos, sofre mais intensamente as consequências. Esses são alguns motivos que aumentam os questionamento se a Ford vai deixar o Brasil.

Autolatina

Não seria a primeira vez que a Ford pensa em deixar o mercado brasileiro. Ela, a rigor, passou a ser controlada para a Volkswagen em 1987, quando se anunciou a fusão das duas empresa numa terceira, a Autolatina. Entretanto, o controle da empresa estava nas mãos da alemã, que detinha 51% de participação acionária. As duas decidiram, em 1996, voltar a operar independentemente e a Autolatina foi extinta.

Nada parecido com o anúncio feito há dois meses pelas matrizes da Ford e Volkswagen de uma “aliança estratégica” para desenvolvimento conjunto de veículos comerciais, o que tornaria ambas mais competitivas no mercado em níveis mundiais. Mas, como os big-shots das duas gigantes multinacionais andam trocando figurinhas, nunca se sabe qual será o próximo anúncio.

Desde a primeira notícia da Bloomberg que os executivos da Ford no Brasil negam de pés juntos que a Ford vai deixar o Brasil. Até porque, se concordam com o que se diz nos EUA, seu faturamento entra em queda livre. Seus argumentos para defender a permanência são consistentes, mas os dos executivos de Detroit merecem atenção.