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Atualmente, 123 mil famílias vivem abaixo da linha da pobreza em Mato Grosso. Contudo, estudos de instituições internacionais mostram que a recessão econômica tem e vem gerando milhões de novos pobres em todo o país. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aponta que países da América do Sul têm retirado proteções sociais e pela primeira vez em mais de uma década registram o aumento da fome. Em Mato Grosso, o governo estadual lançou no início do ano o programa "Pró-família" para atender 35 mil famílias em situação de vulnerabilidade social.

Dados publicados pela ONU revelam que 815 milhões de pessoas hoje passam fome no mundo, 11% da população. No Brasil, um estudo do Banco Mundial apontou que a crise financeira poderá levar até 3,6 milhões de brasileiros para abaixo da linha de pobreza até o fim do ano. Pelos critérios do estudo, são consideradas abaixo da linha de pobreza pessoas que vivem com menos de R$ 140 por mês. Segundo o Banco Mundial, a maior parte dos “novos pobres” virá das áreas urbanas. O aumento da pobreza na zona rural, segundo o estudo, será menor porque as taxas de vulnerabilidade já são elevadas no campo.

Morando em uma simples casa localizada na Avenida Dante de Oliveira, próximo do Córrego Guimitá, no bairro Planalto, a doméstica Berenice Ferreira Azevedo, de 36 anos, está desempregada e o sustento da família é mantido pelo marido, que trabalha como auxiliar de mecânico e ganhar R$ 937,00. É com esse dinheiro, o casal mantém os quatros filhos, de 10, 13, 15 e 18 anos, os três netos, de quatro, três e um e sete meses de idade, além de dois sobrinhos.

“A situação não é fácil. Hoje (ontem) estamos sem gás. Vou ter que cozinhar num fogãozinho à lenha”, contou. Berenice conta que recebia R$ 160,00 do “Bolsa Família”, programa do Governo Federal, mas que o benefício foi cancelado. “É pouco, mas ajuda a comprar um leite e até material escolar para as crianças”, disse na esperança de voltar a receber o recurso em alguns meses.

Segundo Berenice Azevedo, a casa em que vivem pertence ao seu pai. Por isso, não pagam aluguel. Além disso, a água e a energia que abastece o imóvel são clandestinos. “Já tivemos situações que não tínhamos o que comer. É triste ouvir as crianças pedir leite e não ter em casa”, contou. Contudo, ela garante que a família é bastante unida e que acredita em dias melhores.

Em Mato Grosso, desde o início do ano o Governo lançou o projeto “Pró-família”, destinado a 35 mil famílias. Entre os últimos contemplados, estão moradores dos municípios de Cotriguaçu e Juruena, que receberam os cartões do projeto na última semana. Nestas cidades, 153 famílias com renda inferior a um salário mínimo são beneficiadas. Elas passarão a receber uma ajuda de custo no valor de R$ 100 mensais, por um ano. O benefício permite que as famílias comprem alimentos em mercados credenciados.

Na oportunidade, o secretário de Trabalho e Assistência Social, Max Russi, lembrou que atualmente 123 mil famílias estão abaixo da linha da pobreza em Mato Grosso e que o Pró-família tem como meta dar melhores condições de vida a estas pessoas. "Neste primeiro momento, mais de 21 mil famílias serão atendidas e este programa nos próximos meses, será um dos maiores do país", frisou.

Levantamentos internacionais mostram ainda que, entre 2015 e 2016, o número de famintos aumentou em 38 milhões de pessoas. A última vez que um crescimento havia sido registrado foi em 2002. A fome ainda afeta 155 milhões de crianças que, diante da falta de alimentos, são mais baixas e menos desenvolvidas para sua idade. Esse é o primeiro informe mundial sobre a fome depois que a ONU adotou como meta erradicar a fome até 2030 no planeta.

O aumento do problema revela que o desafio pode ser maior que o que se previa e a situação preocupa. Para José Graziano, diretor-geral da FAO, tiveram impacto questões como a desaceleração do crescimento, o desemprego, a queda do salário mínimo e a deterioração das proteções sociais. "Talvez vamos ver a volta da fome de locais onde estava erradicada", alertou.

No caso do Brasil, as entidades apontam no informe que a fome atingia 4,5% da população em 2004-2006, cerca de 8 milhões de pessoas. Em 2014-2016, ela seria de menos de 2,5%. Mas um documento enviado para a ONU há cerca de um mês e preparado por 20 entidades nacionais e internacionais alertou que existe um risco de que, para 2017, o país volte a fazer parte do Mapa da Fome. "A América Latina foi afetada pela queda nos preços de commodities, arrecadação e crescimento. É sintomático que o panorama mostre aumento de fome na América do Sul, que era a região que ia mais adiante no combate", frisa.