Pichetti Rui Vilani  Inez Trentin Zandoná    Outros

DivulgaçãoMarcela* conheceu Ricardo* ainda na adolescência e, quando ela tinha 14 anos, chegaram a namorar. Naquela época, aquele ‘amor de infância’ não resistiu ao tempo e cada um seguiu seu caminho. Anos mais tarde, já na casa dos ‘20 e poucos anos’, eles se reencontraram. O interesse do passado renasceu e eles voltaram a ficar juntos, passando a morar junto no novo apartamento dela. O relacionamento evoluiu e tiveram um filho. Contudo, ao contrário de muitas histórias de amor que nasceram ainda na infância e tiveram resultado feliz, essa ganhou um ingrediente macabro: a violência doméstica.

Foi apenas seis meses depois de reatarem, quando ainda morava na casa dos pais, que Marcela sofreu a primeira agressão. Ricardo chegou bêbado, eles discutiram e ele a agrediu com chutes e empurrões. Além disso, destruiu uma televisão, chegando a jogá-la no meio da rua, e o aparelho celular dela, um presente dado por dele, arremessado brutalmente contra a parede. “Registrei um boletim, ficamos separados oito meses. Reatamos com ele prometendo que isso jamais iria acontecer novamente. Nos casamos, tivemos um filho e achei que as coisas realmente fossem mudar. Mas só piorou. Ele continuou uma pessoa agressiva. Ele não mudou, só piorou”, conta Marcela.

Foto: TJMTEsse primeiro boletim de ocorrência foi registrado em março de 2017. Oito meses depois, após muita insistência e promessas de mudança, o casal voltou a ficar junto e se casou. Contudo, em maio de 2020, as agressões voltaram e Marcela achou que fosse morrer enforcada pelo cabo de um celular. “Ele é muito agressivo, me humilha com palavras. Usa muito da força, me enforcou. Das duas vezes, tanto na casa da minha mãe quanto na minha casa, ele me enforcou, deu chutes. Na minha casa ele pegou o cabo do carregador, colocou no meu pescoço... E eu pedindo pra (sic) soltar, senão ele me matava com o próprio carregador.”

Enquanto era agredida, Marcela optou por não gritar por socorro aos vizinhos, pois o filho estava dormindo no quarto e ela temia pela vida dele também. “Veio para cima de mim, me empurrou, enforcou. Deu muito chute, eu fique bastante roxa, e tudo o que eu queria era minha mãe ali”, conta a jovem.

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“Desde esse dia, 22 de maio, eu não tive mais paz na minha vida. Não tive mesmo. Ele continuou com ameaças. Foram vários boletins. O pessoal da delegacia já até me conhecia. E o último fato que foi grave mesmo foi que ele mandou mensagem ameaçando dia 31 e no dia 1º ele veio aqui [na casa da mãe]. Foi questão de minutos senão ele me pegava aqui dentro, foi Deus que me tirou daqui. Ele quebrou tudo, quebrou moto, portão... Se ele pegasse a gente dentro de casa, matava”, revela a jovem. Por ter descumprido medida protetiva, um mês depois de invadir a casa da ex-sogra Ricardo foi preso, na cidade de Cáceres. Ele continua detido até hoje.

Cuidando do filho pequeno com a ajuda da mãe, Marcela lamenta não ter percebido os sinais de que o relacionamento não daria certo no início do namoro. “As pessoas me falavam ‘você viu quantos sinais você teve? Esse relacionamento foi de muitas idas e vindas. Você não quis enxergar a pessoa que ele era’. Eu não quis enxergar. Era o gênio dele, de brigar, de gritar, de ser agressivo. E às vezes a gente acha que a pessoa vai mudar e não muda. Com o tempo, ele passa a achar que você é propriedade dele. Então, quando sofrer uma agressão, denuncie. Não fique com medo. Não tenha medo.”

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Dona Helena*, mãe da jovem, também passou a ser alvo das agressões, por meio de ameaças de morte enviadas constantemente. Além de ter a casa invadida e os pertences quebrados por Ricardo, ela diz viver com medo e chegou a cogitar vender a casa na tentativa de se sentir mais segura. “Qualquer um que vê a foto do jeito que minha filha ficou, do jeito que a minha casa ficou, não quer que eu volte para cá. Mas, se eu sair daqui, pra (sic) aonde eu vou? Se ele estiver com instinto de me matar, ele vai. De matar minha filha, vai matar”, contou a senhora, aos prantos.

Apesar do sofrimento vivenciado ao longo dos últimos meses, dona Helena diz que confia no trabalho do Poder Judiciário. “Ninguém desemparou nós (sic). Ninguém, porque estão fazendo o serviço bem-feito. Tanto que com o dinheiro que o pai dele falou que ia tirar ele [do presídio], ele ficou lá e não saiu.”

Segundo ela, no processo estão as provas de toda maldade cometida por Ricardo. “Eu fico muito sentida porque não quero que aconteça isso com outras mulheres. Com outras mães. Não quero chorar a morte da minha filha, nem que ela chore a minha morte. Não quero ficar sem meu neto. Eu confio no serviço da Justiça, eles estão com a gente, não nos abandonaram. O processo não ficou parado, não está engavetado. Mesmo com a pandemia a Justiça está trabalhando. Trabalhou em cima do processo, nas investigações. O Poder Judiciário fez o papel dele.”

Foto: TJMT

Ciclo da violência – Integrante da equipe psicossocial do Fórum de Cuiabá, a psicóloga Daniella Cardoso explica que, dentro do ciclo da violência, existem várias formas de ela se manifestar. “As pessoas têm essa mania de achar que violência é somente a física ou quando chega ao extremo do feminicídio, a morte. Mas temos a física, psicológica, patrimonial, moral.”

Segundo a profissional, a violência psicológica é uma das mais frequentes e que, muitas vezes, mais machuca a vítima. “Ela marca mais por dentro a pessoa. Porque é aquela pressão que faz você se sentir diminuída, se sentir menor, faz você achar que nunca mais poderá ser amada por ninguém. É muito grave. O homem que abusa, às vezes, chega a nunca agredir fisicamente. Ele começa a te colocar pra baixo, falar que você é feia, que não merece essa conquista. O que ele tem sempre é muito melhor. Ele começa a te afastar dos amigos, da família. Tem que prestar atenção nesses sinais”, salienta.

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Conforme Daniella, em razão dos abusos, muitas mulheres passam a duvidar da própria sanidade mental. “Você começa a acreditar que tudo aquilo que ele fez não aconteceu. Ele te agride, mas fala que isso não aconteceu. Você pode reparar que muitos homens quando terminam o relacionamento falam ‘a minha ex era louca’. Mas por que será que era ela louca? Ela era louca ou você, com seu comportamento agressivo e manipulador, deixou ela fora do normal?”, questiona a profissional.

Romper o ciclo – Após os episódios de violência, muitos agressores se mostram arrependidos e pedem uma segunda chance. O casal reata, como no caso de Marcela, e a situação torna-se um eterno ciclo de violência e perdão. “Ele te dá um tapa, mas depois chega com um buquê de flores. Ele te agride, mas depois chega com um anel ou um ‘eu te amo’. É um ciclo. Justamente por ser um ciclo, é mais difícil sair. A mulher acredita que vai conseguir mudar esse homem. E o próprio homem abusivo tem esse dom da manipulação. Ele manipula de uma maneira que a vítima não percebe”, constata a psicóloga.

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Para ela, a vítima, apesar de ser algo muito complexo, precisa despertar para essa situação. “Não é fácil. Ninguém gosta de apanhar. A vítima está ali porque está dentro de um ciclo de violência e não consegue sair. Ao invés de julgar, precisamos ajudá-la a sair desse ciclo, porque ela pode ser morta. Não é um processo fácil sair desse ciclo de violência. Tem mulheres que estão há anos em relacionamentos abusivos. Hoje a gente sabe que a Lei Maria da Penha é uma lei pública. Se você sabe de alguém que está sendo agredida, denuncie. Porque vamos evitar muitas mortes. Uma mulher é morta por hora aqui no Brasil, sete mulheres mortas por hora no mundo. É muita coisa. Se preservem, se amem, não critiquem as outras mulheres. Seja a mulher que arruma a coroa da outra sem mostrar para o mundo que a coroa dela estava torta. E, caso se sinta ameaçada, ligue 180. Vai ter alguém para te ajudar.”

*nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas.

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Veja AQUI o vídeo A Violência Sentida na Pele.

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