Pichetti Rui Vilani  Inez Trentin Zandoná  Tarcísio Tonhá  Outros

Imagem Ilustrativa

O trabalho de jornalista não é fácil. É preciso humildade para conquistar a confiança das fontes de informação e ter serenidade para enfrentar maus-humores e diversos "nãos" durante o dia. Aí vem a parte técnica de escrever, fotografar, gravar, diagramar e editar na plataforma. Não é todo mundo que tem o dom, mas há quem goste desse mundo.

No entanto, os obstáculos do jornalismo vão muito além do trabalho que ele dá para ser executado. Há de se ter muito cuidado com as Leis que velam a liberdade de imprensa no Brasil. Há exemplo da recente lei nº13.869/2019 de abuso de autoridade que não permite a exposição de imagens de suspeitos conduzidos por policiais, mesmo pegos em flagrante de crimes.

Nosso país está em 107 no hanking de liberdade de imprensa, entre 180 países, segundo o RSF em 2020. Os 4 primeiros são a Noruega, Finlândia, Dinamarca e Suécia. Nós estamos abaixo da Argentina (64), Israel (88), Sérvia (93), Paraguai (100), Moçambique (104) e um pouco acima da Bolívia (114) e da Venezuela (147). Os útimos são China, Eritreia, Turcomenistão e Coreia do Norte.

Os leitores cobram enérgicos em cada nova notícia, mais informações sobre a identidade de suspeitos, mas a exposição de nomes e características pode render processos de calúnia, injúria e difamação com altos custos de defesa jurídica, mesmo que não haja condenação do veículo de comunicação. E segundo recente consultoria jurídica, até mesmo a divulgação de idades, sexo e localizações aproximadas são perigosas para o jornalista.

Essa censura acomete o cidadão comum que divulga informações e expõe nomes e imagens de terceiros em grupos de whatsapp e redes sociais. Proferir opiniões que acusem classes como "os vereadores são isso" ou "os funcionários de tal lugar são aquilo", mesmo sem citar nomes, podem render processos que, só para acinoar uma defesa, ultrapassam salários. No entanto, um veículo de comunicação deveria ter sua premissa, baseada no parágrafo 1º do Artigo nº220 da Constituição Federal de 88 "Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação, diferente de uma pessoa física, mas essa Lei foi cercada de emendas que a cerceam.

Nesse caso o jornal tem que sobreviver de boas notícias como obras, inaugurações e boas estatísticas, que são poucas e dão pouquíssima audiência, pois o ser humano prefere e acessa mais as más notícias. Teríamos de fechar os olhos para os crimes, corrupção, barracos, acidentes, desastres e maquiar o cenário geral da sociedade regional. Como passear entre destroços e olhar apenas para o céu, para o por do sol.

Sem a possibilidade de divulgar as más notícias, não há coibição moral de ter o crime ou o criminoso expostos. Não há vergonha de se cometer desvios de conduta. Quanto menos liberdade de imprensa, mias liberdade para más ações dos mal-intensionados. Alguém pratica um golpe e prejudica uma pessoa, mas niguém sabe se o golpe pode ser novamente aplicado.

Além disso, para sobreviver o jornalismo precisa de patrocinadores. Nenhum autor de crime com nome no Boletim de Ocorrência da polícia vai contribuir para a existência do jornal que divulgou seu ato criminoso. Da mesma maneira nenhuma boa notícia, geralmente beneficente, vai gastar com a divulgação de seu acontecimento. A contrapartida do jornalismo é a publicidade. Aproveitar espaços entre as informações para anunciar produtos e serviços comerciais. Ligar a audiência à ofertas que podem ser interessantes para ela. É assim que funciona desde o início das comunicação de massa e faz parte da vida de todos.

Por fim, vem as críticas dos leitores, muitos deles que apenas visualizam o título, sem acessar os detalhes do corpo da matéria. A generalização e comparação de um noticiário com outros de índole duvidosa de nível nacional é constante. Alguns cobram sobre o fato ruim que aconteceu e todo mundo já está sabendo por boatos virtuais. Outros brigam porque não tem detalhes suficientes. E certas vezes recebemos ligações para remover conteúdos, senão... A impressão que dá é que o jornalista é mais culpado que o suspeito, pois sofre pressão de todos os lados, além de ameaças de advogados e suspeitos. 

Em suma, o jornalismo é trabalhoso, concorrido, estressante e perigoso para a saúde jurídica, física e mental do profissional. Tem que ter muito apreço pela área e coragem para trilhar esse caminho. Além de que o retorno financeiro não é, nem um pouco perto, da soma glamourosa de artistas, celebridades ou grandes empreendedores. No interior então, chega a ser comprometedor.

Mas então porque manter um veículo de comunicação, se há outras plataformas de troca de informações na internet? Muitas delas anônimas, sem sa consequências citadas acima? Bom, talvez porque lá atrás alguém investiu tempo, dinheiro e estudos em uma carreira de comunicação. Mas também porque um veículo de comunicação honesto deveria ser o porto seguro de credibilidade das informações. Um lugar para se atualizar, ter um diálogo aberto e que contribuísse para a ordem a moral e o progresso da comunidade.

Aquela inversão de valores que se comenta no Brasil em diversas outras áreas, também acomete o jornalismo, dando a sensação de que sua prática, outróra tão glamorosa e respeitada, atualmente é o verdadeiro crime na sociedade.