Reprodução | Foto: Guardiões do PantanalReprodução | Foto: Guardiões do Pantanal

Nenhuma forma de olhar o Pantanal é melhor do que a visão focada no Homem Pantaneiro, a espécie humana que ali habita há mais de três séculos e que tem personalidade regional tão identificada com a terra, que se funde e se confunde com ela.

Qualquer dano ambiental ou pressão política sobre aquela região alagável atinge diretamente seus moradores.

A população pantaneira se alimenta, trabalha e se diverte numa atmosfera social única, que, mesmo sendo brasileira e mato-grossense, tem um quê diferenciado: é uma cultura viva dentro de um universo de brasilidade.

O fogo em 2020, o secamento de corixos e baías e a drástica redução do rebanho bovino são indicativos de que algo atípico pode violentar a identidade do indivíduo de falar espichado, manso e cantarolado, que toma guaraná ralado para se fortalecer, que pesca, dorme em rede, é imune ao sol e aos mosquitos, que tem o Cavalo Pantaneiro por companhia no trabalho realizado num ambiente praticamente aquático.

O Pantanal não é um gueto.

É um conjunto social que interage bem com as demais culturas, que, ao longo de séculos, contribui com a guarda da fronteira com os hermanos também pantaneiros ou do chaco. 

Mas, o que acontece àquele povo?

Em Poconé (100 km ao Sul), o Pantanal enfrenta a ausência do Estado em todos os níveis.

O município tem 17.156 km², sendo que 13.776 km² ou 80,3% compõem a área alagável, ou seja, o Pantanal propriamente dito.

Essa vastidão maior que o Distrito Federal não conta com posto de saúde, escola e policiamento rural.

Viver nessa região, até mesmo para quem ali nasceu, é uma aventura. Pela característica regional e força de lei, não há assentamento da reforma agrária na área.

O perfil agrário é o de grandes propriedades.

Com baixa densidade populacional, o pantaneiro convive em família e bem afastado da vizinhança.

Esse isolamento se agravou nos últimos anos, em razão de várias fazendas terem sido abandonadas, alerta o presidente do Sindicato Rural de Poconé, Raul Santos Costa Neto, poconeano e que somente se ausentou de sua terra para cursar veterinária.

O Homem Pantaneiro foi atingido em cheio pelos incêndios florestais em 2020, e não é difícil saber as causas do fogaréu.

Todos os anos, o Pantanal é cenário de fogo para limpeza de pasto, mas, no ano passado, as chamas fugiram ao controle pela estiagem prolongada, altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar e as plantas invasoras que se espalhavam pela pastagem, por falta de definição jurídica no combate a essas pragas.

Costa Neto lembra que, em 2008, a Assembleia Legislativa aprovou e, em 21 de janeiro daquele, ano o governador Blairo Maggi (PP) sancionou a lei que criou a Política de Gestão e Proteção à Bacia do Alto Paraguai, mas que somente em janeiro deste ano essa lei foi regulamentada pelo governador Mauro Mendes (DEM).

Durante 13 anos, enquanto a regulamentação hibernava, vigorava a regra anterior, que proibia o corte raso das invasoras pombeiro, canjiqueira, pateiro, pimenteira, cambará, algodoeiro, mata-pasto-amarelo e amoroso.

“Essa vegetação, adulta, em parte foi responsável pela propagação do fogo”, observa Costa Neto.

O Governo sentiu o golpe. Embora não tenha se pronunciando sobre as invasoras, tratou imediatamente de regulamentar a lei que hibernava, e ela permite a limpeza de pasto derrubando e roçando tais plantas.

Mas, não foram somente elas as responsáveis pelo fogaréu: há muitas fazendas abandonadas no Pantanal, porque seus donos sentiram que não mais oferecem lucratividade.

Num comparativo, Costa Neto diz que fazenda abandonada “é o mesmo que armazenar gasolina”.

Mesmo com os incêndios florestais e a escassez de água, “o pantaneiro está otimista”, segundo Costa Neto.

O dirigente ruralista observa que não há previsão de forte estiagem neste ano, e que muitos proprietários perfurarão poços artesianos, apesar da crise que atinge o país inteiro.

À crença de reversão da situação, os moradores somam ações concretas, como as desenvolvidas pela entidade Guardiões do Pantanal, constituída por representantes de diversas atividades econômicas e sociais poconeanas, que luta em várias frentes em defesa do Homem Pantaneiro e do meio ambiente.

Dentre os participantes de Guardiões, a advogada Daniela Preza, que integra a Comissão Especial do Pantanal, na Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso (OAB-MT). 

Em outubro do ano passado, imediatamente após o fim dos incêndios florestais, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec) contratou o consultor Amado de Oliveira para elaborar o Plano Emergencial de Recuperação da Pecuária Pantaneira Pós-Incêndios.

Segundo o secretário César Miranda (Desenvolvimento Econômico), o plano contou com parceria dos criadores, Federação da Agricultura e Pecuária (Famato), Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) e da cooperativa de crédito Sicredi.

O documento aponta a necessidade de abertura de linha especial de crédito federal de R$ 439,3 milhões para perfuração de 80 poços artesianos e semiartesianos; construção de cercas, currais e de 120 barragens; limpeza de pastagem; e reposição de reprodutores e matrizes bovinas.

Demanda pelo financiamento há, mas tão grandes quanto ela são a burocracia governamental e a engrenagem bancária.

O quê da questão é o calendário, que não espera.

A recuperação da pecuária proposta no plano passa pela necessidade de água na estiagem, o que não será fácil, no primeiro momento, sem perfuração de poços; e, no passo seguinte, sem construção de barragens; o gado precisa de pasto, que, para ser limpo, tem custo.

Ou seja, o Pantanal em Poconé está entre o mau humor da natureza e a burocracia, ou no popular, entre cruz e a espada.

OUTROS TEMPOS – A pecuária mato-grossense começou no Pantanal, em Poconé, Cáceres, Barão de Melgaço e Santo Antônio de Leverger.

Nas décadas de 1970 e 1980, o rebanho bovino poconeano era de um milhão de cabeças de mamando a caducando.

Em 2020, caiu para 494.686. “Isso é um baque”, reconhece Costa Neto. Mas, essa diferença no quantitativo é ainda maior quando vista com lupa.

A área pantaneira alagável tem 160 mil bovinos e a parte alta do município, mais de 334 mil, sendo que, em 1970, o rebanho inteiro estava no Pantanal.

No passado, o aumento do rebanho sempre foi característica pantaneira em Poconé, segundo o Indea, mas, nos últimos anos, ao invés de crescimento, o número de animais despenca.

O que estaria por trás da redução do rebanho no Pantanal em Poconé?

Alguns fatores são decisivos para tanto.

A invernada nas partes altas formada no cerrado, com preparo do solo e semeadura de brachiaria e outros tipos de pastagem, dá mais lucratividade ao criador do que os campos pantaneiros; a logística para o embarque aos frigoríficos fora da área que alaga é melhor; e a perenidade da pastagem, o que não ocorre nas áreas alagáveis, que exigem remoção do gado nos picos das enchentes, certamente, estão entre as razões para o encolhimento da mais tradicional pecuária mato-grossense. 

No aspecto social, os incêndios florestais e a redução da água atingem diretamente o Homem Pantaneiro, que terá dificuldade para permanecer na região.

Na esfera econômica, o baque é indiscutível tanto pela redução do rebanho bovino quanto pela insegurança da pecuária por razões climáticas.

No plano ambiental, é visível o esvaziamento dos corixos e baías e o sumiço dos bichos.

Costa Neto é otimista. Sonha com a volta da regularidade do tripé que alicerça o Pantanal: a sustentabilidade que depende das cheias; a questão social, com a preservação da cultura pantaneira em sua amplitude; e a econômica, com o fortalecimento da pecuária e o desenvolvimento do ecoturismo, que é a segunda atividade empresarial regional, mas que está atingida pela pandemia da Covid-19 e força o fechamento de pousadas e ranchos de pesca, por falta de turistas para ocupação dos leitos.

Otimismo à parte.

O Pantanal precisa de realidade e essa tem sido muito dura.

Antes das lavouras mecanizadas nas partes altas e do surgimento e crescimento de cidades, havia harmonia ambiental.

Desde 1970, quando Mato Grosso passou a receber levas e levas de sonhadores em busca do amanhã, as coisas mudaram.

Por mais que as matas ciliares das lavouras filtrem, o agrotóxico chega ao Pantanal.

O esgoto in natura lançado na Capital, Várzea Grande, Cáceres e outras cidades contamina a parte alagável.

A barragem do aproveitamento múltiplo de Manso, no rio Manso, regulou a vazão do rio Cuiabá, do qual é afluente, e suas águas não enchem mais as baías ribeirinhas.

A intervenção humana alterou a harmonia ambiental e atinge diretamente o Homem Pantaneiro, com sua pecuária rudimentar em sintonia com o meio ambiente.

O deslocamento do gado do Pantanal para as terras altas não reduz o rebanho bovino mato-grossense, apenas o desloca de uma para outra região.

O mais grave é que, na medida em que fazendas pantaneiras são abandonadas ou reduzem o número de cabeças nas pastagens, menos habitada se torna a parte alagável, em razão do desemprego que força a mudança do Homem Pantaneiro que trabalha de peão – com ele, sua família também diz adeus.

São mortes coletivas: morre o Pantanal e, intimamente, morrem seus habitantes ,por não conseguirem se adaptar em outros ambientes.