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A ideia de não sentirmos nada foi adotada pelo filme “The Givers” com o título em português “O doador de memórias”. Baseado no livro “O Doador” (1993) de Lois Lowry, traz uma sociedade utópica, sem guerras, doenças ou tristezas. O objetivo deste texto não é fazer uma crítica sobre o filme, mas refletir sobre a ideia de não sentirmos nada.

O filme aborda uma sociedade planejada, totalitarista, em que todos já nascem destinados a algo. E para criar uma sociedade perfeita, é preciso apagar todas as memórias coletivas que relembrem qualquer tipo de sentimento ou emoção humana, seja boa ou ruim. Dá a sugestão de que para se ter uma sociedade perfeita, é preciso que não haja sentimentos.

Para isto, não bastaria apenas abolir os sentimentos ruins, seria preciso extinguir também os sentimentos bons. Coisas simples como um abraço ou um entrelaçar de mãos que causa um turbilhão de sensações em cada parte do nosso corpo, um simples sorriso, um movimento, uma dança, tudo isso também parece ser perigoso e ameaçador para esta tal sociedade perfeita.

Há momentos em que o protagonista traz em suas palavras, um discurso carregado de sentimentos, e imediatamente lhe é exigido clareza. É preciso nitidez nas palavras quando não se compreende o que se sente. É preciso uma palavra racionalizada e objetiva, em que não precise de empatia para compreendê-la. É preciso uma vida preenchida de cor cinza e vazia de sensações. Mas até que ponto?

As cenas em preto e branco garantem a ausência de sentimentos. As cores surgem quando os sentimentos começam a pulsar no peito do protagonista. Sugere a ideia de que os sentimentos são carregados de cores. Tudo se torna mais atrativo quando o colorido mostra sua força. A alma humana clama pelo sentir, é intrínseco. Mesmo que o sentimento doa forte, ainda assim é preferível sentir.

Esta discussão traz uma margem para ares filosóficos e a questão é: se não sentíssemos nada, realmente teríamos uma sociedade tão perfeita como a mostrada no filme? Mas até que ponto uma sociedade sem sentimentos garantiria que não haveria guerras? Abolir o amor e o ódio realmente seria eficaz em conter o que há de mais puro ou obscuro na alma do ser humano?

A alma humana é contornada de emoções e sentidos. E talvez para atingirmos o ápice da sociedade perfeita, precisaríamos deixar de ser humanos.